"A amizade é difícil de descrever", afirmou Alexander Nehamas, professor de filosofia em Princeton. "É mais fácil dizer o que a amizade não é. E, acima de tudo, ela não é algo útil", diz o filósofo, retomando uma ideia já defendida por Arthur C. Brooks.
Ao longo da história, muitos pensadores refletiram sobre a amizade. Sócrates, por exemplo, afirmava que "a amizade baseada apenas no prazer momentâneo não resiste ao primeiro momento em que essas condições desaparecem". Já José Antonio Marina defende que "por meio de uma tela não pode haver verdadeira amizade nem cuidado".
Mas, afinal, o que nos atrai em nossos amigos?
Em seu livro "On Friendship", Nehamas dedica cerca de 300 páginas a explorar uma das relações que mais influenciam nossa vida e, ao mesmo tempo, uma das mais complexas de compreender. É justamente nessa obra que ele busca responder a essa pergunta. "Não nos interessamos pelas pessoas apenas pelo que elas são, mas também pelo que podem se tornar para nós."
A paráfrase abaixo do filósofo resume uma das principais ideias desenvolvidas no livro.
Assim como as metáforas e as obras de arte, as pessoas que são importantes para nós são, sob a nossa perspectiva, inesgotáveis. Sempre permanecem um passo além do ponto mais distante que nosso conhecimento sobre elas conseguiu alcançar — mas apenas se, e enquanto, continuarem sendo importantes para nós.
Em outras palavras, Nehamas defende que não somos atraídos pelas pessoas por aquilo que elas são de forma imutável, mas pelas possibilidades que representam. Um amigo sempre tem algo a revelar, não apenas sobre si mesmo, mas também sobre nós, já que essas relações funcionam como um processo contínuo de descoberta mútua.
Seguindo essa linha de pensamento, interessamo-nos por alguém porque intuímos que ainda há muito a conhecer e porque percebemos que esse vínculo tem o potencial de nos transformar de maneiras que sequer conseguimos prever.
Que precisamos de amigos, isso a ciência já deixou claro. O Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard, um dos mais longos já realizados sobre felicidade e bem-estar, mostrou a importância dos vínculos sociais para uma vida saudável. Outras pesquisas também apontam uma relação direta entre a amizade e a longevidade e indicam que ela pode representar quase 60% da felicidade das pessoas.
Em seu livro, Nehamas explica por que amamos nossos amigos. Uma das razões, segundo ele, é que eles, muitas vezes sem perceber, ajudam a determinar quem somos e quem podemos nos tornar. Cada nova amizade representa uma nova maneira de nos aproximarmos de nós mesmos.
Essa ideia dialoga com a teoria da expansão do eu, desenvolvida pelos psicólogos Arthur e Elaine Aron na década de 1980. Segundo essa teoria, os seres humanos têm uma tendência natural a ampliar seu potencial, o que explica por que nos sentimos atraídos por pessoas capazes de promover esse crescimento. Com a amizade acontece o mesmo: buscamos pessoas que acrescentem algo às nossas vidas.
Outro conceito que ajuda a entender esse processo é o efeito Michelangelo, segundo o qual absorvemos, muitas vezes sem perceber, as crenças, as expectativas e a maneira de pensar das pessoas que nos cercam. Se um bom amigo acredita em você, é mais provável que você também passe a acreditar em si mesmo.
Isso não significa que qualquer relação tenha esse poder. O impacto depende da qualidade do vínculo, da reciprocidade e de uma influência baseada no apoio, e não no controle. Ainda assim, é inegável que nossas amizades podem nos transformar.
Isso também não significa que a amizade seja perfeita aos olhos de Nehamas. Em entrevista ao Medium, o filósofo afirmou que "como toda forma de amor, a amizade gera alegria e satisfação, mas também pode trazer sofrimento e tristeza", já que qualquer relacionamento está sujeito à rejeição, à traição e às decepções.
Ainda assim, essa visão, que o próprio Nehamas chega a comparar a uma espécie de alquimia, ajuda a explicar quem nos tornamos. "Para o bem ou para o mal, aquilo em que nos transformamos depende, em grande medida, dos nossos amigos. E, quanto menos seguros estivermos de nós mesmos, maior será a contribuição deles e mais profunda será sua influência."
Com isso em mente, fica ainda mais evidente a importância de escolher bem essa família que construímos ao longo da vida. Afinal, as pessoas a quem você oferece sua amizade podem influenciar, de maneira decisiva, quem você será no futuro.